O balanço ainda esta lá

Envelhecido pelo tempo, silencioso, parado.

Bastou olhar para ele para ouvir de novo as risadas dos meus filhos pequenos ecoando naquele lugar.

Durante muitos anos, aquele ponto na estrada foi parada obrigatória nas viagens para visitar a família. Café corrido, lanche rápido, troca de fraldas, crianças agitadas depois de horas no carro.

Enquanto eles corriam para o escorrega e o balanço como se aquele fosse o melhor parque do mundo, eu fazia o que toda mãe faz sem perceber: observava, cuidava, protegia, antecipava perigos, chamava atenção e sorria cansada.

Naquela época, eu não imaginava que um dia sentiria saudade até do cansaço.

Dessa vez, porém, a cena era outra.

Passei pelo mesmo lugar… sem crianças no banco de trás.

Sem pedidos de colo.

Sem brigas infantis.

Sem vozes ansiosas perguntando “já chegou?”

Só nós dois e uma sensação difícil de explicar.

Fiquei olhando aquele espaço e pensando em como a vida muda sem pedir licença.

Os brinquedos já não eram os mesmos. O escorrega nem existia mais. E, de repente, me dei conta de que talvez a parte mais difícil da maternidade seja justamente essa: aprender a ser mãe de adultos.

Porque nós passamos anos preparando os filhos para ganhar o mundo.

Incentivamos autonomia.

Ensinamos valores.

Apoiamos sonhos.

Mas quase ninguém nos prepara para o dia em que eles realmente criam asas.

Quando deixam de precisar da nossa presença constante.

Quando os planos deles começam a apontar para lugares onde talvez a gente não caiba da mesma forma.

Quando o colo deixa de ser necessário.

Quando a casa silencia.

Existe orgulho, claro. Muito orgulho.

Existe a sensação de missão cumprida.

Mas existe também um luto silencioso.

O luto pela infância que terminou.

Pela rotina que mudou.

Pela versão de nós mesmas que existia naquela fase da vida.

E talvez uma das maiores confusões emocionais do ninho vazio seja exatamente essa mistura de sentimentos: felicidade pelas conquistas deles… e saudade daquilo que já não volta mais.

Ser mãe realmente não tem treinamento. A gente aprende vivendo.

E cada nova fase exige uma nova versão de nós.

Talvez por isso eu sempre tenha buscado construir interesses próprios, novos projetos, novos propósitos além da maternidade. Não porque meus filhos fossem menos importantes. Mas porque, no fundo, eu sabia que esse dia chegaria.

A vida precisa continuar se atualizando.

O passado nos constitui, mas não pode ser morada permanente.

Fiquei ali alguns minutos olhando aquele balanço vazio… e sentindo saudade das minhas crianças.

Parece estranho como a memória funciona.

Às vezes parece que foi ontem.

Às vezes que aconteceu em outra vida.

Mas talvez amadurecer seja justamente isso:

aprender a honrar o que foi vivido sem deixar de caminhar para o que ainda virá.

Que a vida siga seu rumo.

O balanço continuará lá.

Guardando memórias de uma versão minha que existiu e viveu intensamente aquela fase da vida.

E uma parte de mim sempre estará ali  observando meus filhos brincarem, correndo para evitar quedas, cansada e feliz sem perceber que aqueles seriam alguns dos dias mais preciosos da minha história.

Mas a vida não foi feita para permanecer parada em um único tempo.

Ela muda.

Nós mudamos.

Nossos filhos mudam.

E talvez amadurecer seja justamente aprender a olhar para frente sem negar o que ficou para trás. Entender que o passado merece carinho, mas não permanência. 

Outras fases virão.

Outras descobertas.

Outras formas de amar, de cuidar, de existir.

Cada etapa terá sua própria beleza.

E nós também teremos um novo papel em cada uma delas.

Que a vida siga seu rumo.

Com saudade, mas também espaço para o novo.

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